Entrevista com a pesquisadora Vânia Maria Maciel Melo
Atualizado: 29 de jul. de 2022
Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Ceará (1985), com mestrado (1991) e doutorado em Bioquímica (2001) pela mesma Universidade. Fez pós-doutorado em Ecologia Microbiana Molecular na Michigan State University, USA (2006-2007). É professora associada IV do Depto. de Biologia da Universidade Federal do Ceará. Tem experiência nas áreas de Microbiologia ambiental, Ecologia Microbiana Molecular, Metagenômica e Biotecnologia. Se dedica ao estudo de microbiomas do solo da Caatinga e de Manguezais, prospecção de biossurfactantes, enzimas e antibióticos. Desenvolve estudos aplicados à biorremediação de ambientes contaminados com petróleo e recuperação microbiológica do petróleo MEOR). É Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível 1D

1) Como foi a sua experiência ao cursar Ciências Biológicas?
R – Cursar Ciências Biológicas na UFC foi uma experiência maravilhosa para uma aluna de escola pública, como eu. Eu tenho orgulho do meu curso, da minha profissão, então desde a graduação tudo que eu fiz foi com muito prazer. Eu vivia na Universidade, passava o dia e as vezes saía tarde da noite estudando com os colegas. Foram muitas emoções e experiências desde o primeiro semestre que guardo até hoje na memória: as disciplinas do ciclo básico que eram o terror dos estudantes (Física I; Cálculo I e II; Química Orgânica); a liberdade de expressão; os eventos acadêmicos; as atividades do centro acadêmico; a representação nas reuniões do departamento; as festas; jogos de vôlei; debates sobre política; calouradas; a semana da Biologia; Monitoria em Microbiologia e a iniciação científica. Até hoje guardo na lembrança passagens de aulas, conversas com meus professores, estágios que fiz e amigos inesquecíveis!
2) O que motivou você a escolher atuar nessa área?
R – Me considero uma professora vocacionada. Desde pequena já brincava de escolinha, sempre como professora. E a escolha pela Biologia foi influenciada pelos meus professores dessa matéria no ensino médio. Dos assuntos que eu mais gostava, estavam genética e evolução.
3) Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional.
R – Fiz o primeiro ano de Ciências Biológicas, em 1978, e no ano seguinte me casei e fui morar em Campinas, São Paulo, pois meu esposo, Prof. Erivan Melo, já era professor do Departamento de Física da UFC e estava cursando doutorado em Física na Unicamp. Na Unicamp cursei algumas disciplinas como aluna especial e me apaixonei pela Microbiologia. Tive meu primeiro filho em 1981, e no ano seguinte, com a conclusão do doutorado do Erivan, voltamos pra Fortaleza, e eu retomei meu curso de Ciências Biológicas. Assim que voltei fiz seleção para monitoria de Microbiologia e passei em primeiro lugar. Começava aí minha carreira de Microbiologista, pois era monitora e fazia minha iniciação científica ao mesmo tempo, com a supervisão da Prof. Laurênia Albuquerque, minha primeira orientadora. Em junho de 1985 tive minha segunda filha e em dezembro me formei Bacharel em Ciências Biológicas. Em 1986, fui bolsista em um projeto de pesquisa que avaliava o desempenho de leveduras nativas para fermentação alcoólica. Em 1987 fui aprovada na seleção de mestrado em Bioquímica, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular (DBBM). Durante o mestrado, fui orientada pela Profa. Maria da Guia Silva Lima e co-orientada pelo Prof. Xavier Filho. Ainda no mestrado fui aprovada em 1o. lugar em uma seleção para professor substituto do DBMM, onde lecionei Biologia Celular e Molecular nos semestres de 1987.2 e 1988.1. Em Junho de 1988 tive minha 3a filha e continuei apenas no mestrado. Em 1989 fui aprovada em 1o. lugar no concurso para professora efetiva de Microbiologia, no Departamento de Biologia. O inicio da carreira docente atrasou o mestrado, mas consegui defender minha dissertação em 1991, grávida do meu 4o filho, que nasceu em 1992.
Gostaria de ressaltar que conciliar os estudos e o trabalho com filhos não foi fácil, mas foi possível e não poderia ser diferente. Com o título de mestre comecei a montar meu laboratório, mas também me envolvi com a coordenação do curso, sendo vice-coordenadora por 4 anos e depois coordenadora por mais 2 anos. Em 1997, retornei ao DBBM após ser selecionada em 1o. lugar para o doutorado em Bioquímica, tendo o Prof. José Tadeu de Oliveira como orientador. Defendi minha tese em dezembro de 2001 e em 2002 comecei minha trajetória de pesquisadora, como coordenadora do meu primeiro projeto de pesquisa aprovado pelo CNPq. Desde então, foram muitos projetos financiados pelo CNPq, Funcap, Finep, Petrobras e Capes. Em 2006 fui fazer meu estágio de pós-doutorado na Michigan State University, EUA, na área de Ecologia Microbiana Molecular, sob supervisão do Dr. Terry Marsh.
4) Poderia dizer o nome de alguém que te inspirou durante essa trajetória?
R – Impossível citar apenas 1 fonte de inspiração. Dentre os muitos cientistas que me inspiraram estão meu marido, o primeiro cientista que conheci e me incentivou, meus orientadores, alguns ex-professores e colegas que trabalhei.
5) Fale um pouco sobre a sua pesquisa.
R – Minha área de atuação é a Microbiologia Ambiental, onde estudo os microbiomas de solos pristinos e impactados, visando a descrição da diversidade e estrutura das comunidades microbianas e a exploração biotecnológica de microrganismos para biorremediação de ambientes contaminados com petróleo ou a recuperação de solos em processo de desertificação da Caatinga. Todas as pesquisas que coordeno estão voltadas para o desenvolvimento de produtos e processos biotecnológicos de fonte microbiana.
6) Você imaginava chegar aonde chegou há cinco anos atrás? Acha que conquistou tudo ou ainda tem planos?
R – Nunca parei pra pensar onde cheguei! Acho que porque gosto tanto de trabalhar e do que faço, que sempre estou motivada para ir adiante. Em Microbiologia temos muito ainda para descobrir, pois estimamos que conhecemos apenas 1% da diversidade microbiana existente no nosso planeta. Eu particularmente tenho planos de continuar trabalhando e contribuindo para o avanço desse conhecimento até quando tiver saúde e condições para trabalhar.
7) Em algum momento, você sentiu que, como mulher, precisava se provar repetidamente? E se sim, como você superou isso?
R – Não. Nunca senti isso na UFC ou em outras universidades que visitei. Acho que o reconhecimento e respeito que conquistei entre meus pares, independentemente do gênero, são frutos do meu trabalho duro, humildade e ética.
8) O que podemos fazer e como podemos inspirar a próxima geração de mulheres em STEM (Science, Technology, Engineering, and Mathematics)?
R – Sou fã do formato de programas como o “Meninas na ciência“, que tentam atrair plateia em ciências. Esse formato funciona bem e deve ser multiplicado. As crianças e as adolescentes ficam encantadas com o ambiente do laboratório de pesquisa, cheio de mistérios e jovens pesquisadoras com linguagem fácil explicando seu trabalho, os desafios e as conquistas científicas.
9) Qual seria seu conselho para meninas que estão iniciando sua trajetória na Universidade na área de STEM (Science, Technology, Engineering, and Mathematics)?
R – Gosto sempre de aconselhar perseguir os dizeres do pensamento: “Fazer o se gosta é Liberdade, e Gostar do que se faz é Felicidade”. Portanto, tudo começa na escolha da área de atuação, quando se acerta é meio caminho andado para o “Sucesso”, cuja origem vem do Latim e significa “Bom resultado”!

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