É do Nordeste! | Jaqueline Goes de Jesus
A biomédica soteropolitana de 30 anos coordenou a equipe que sequenciou o genoma do vírus da Covid-19 em 48 horas, tempo recorde em relação a outros países.

"...A inclusão diz respeito a nós mulheres não aceitarmos tal desigualdade, e lutarmos cada vez mais para assumir posições de decisão..."
Jaqueline para o TEDxPUCMinas, 2021.
Jaqueline Goes de Jesus é natural do estado da Bahia, no nordeste brasileiro. Foi ainda adolescente que decidiu seguir a carreira de biomédica. A sua primeira experiência em pesquisa envolveu o vírus VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) - algo que a marcou muito pelo impacto a nível mundial, e que determinou que prosseguisse um percurso científico e de pesquisa. Depois de ter estudado o VIH, no início da sua carreira, a cientista integrou o projecto "Zibra", tendo percorrido o nordeste brasileiro para sequenciar o genoma do vírus da zika. No pós-doutorado, tem-se dedicado à investigação da dengue 2.
Se graduou em Biomedicina pela Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública, obteve o mestrado em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa (PgBSMI) pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz - Fundação Oswaldo Cruz (IGM-FIOCRUZ). Mais tarde, tornou-se doutora em Patologia Humana e Experimental pela Universidade Federal da Bahia em ampla associação com o IGM-FIOCRUZ. Atualmente, é pós-doutoranda no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP), bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e professora-adjunta de Bioquímica da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. A pesquisadora integra, ainda, o Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Brazil-UK Centre for Arbovirus Discovery, Diagnosis, Genomics and Epidemiology), um projeto de monitoração de epidemias com o objetivo de dar respostas em tempo real.
Em 2020, fez parte uma equipa coordenada por Ester Cerdeira Sabino de que fazem parte dezenas de cientistas. Vários membros da equipe participaram na sequenciação do genoma do vírus SARS-CoV-2. Os resultados chegaram em apenas 48 horas - um tempo muito abaixo da média mundial de 15 dias, apenas igualado pelo Instituto Pasteur, na França. A equipe de investigação do Instituto Adolfo Lutz recebeu as amostras do primeiro paciente brasileiro infectado no dia 26 de fevereiro e, depois de escrito pelos parceiros internacionais, os resultados foram publicados dois dias depois, no dia 28, no site "Virological.org", um fórum de discussão de especialistas em virologia e epidemiologia. A sequenciação permitiu diferenciar o vírus que infectou o paciente brasileiro do genoma identificado em Wuhan, o epicentro da epidemia na China. As amostras revelaram que este caso estava mais próximo de versões do coronavírus observadas na Alemanha no final de Janeiro. A equipe, igualmente, sequenciou o código genético do segundo caso diagnosticado no Brasil. Neste caso, o vírus aproximava-se de estirpes analisadas na Inglaterra.
Depois do sequenciamento em tempo recorde, Jaqueline já foi homenageada na Assembleia Legislativa da Bahia, recebeu a Comenda Zilda Arns 2020 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), se tornou personagem da Turma da Mônica e virou boneca Barbie, em uma linha produzida para celebrar mulheres que estiveram na linha de frente do combate à covid-19. A pesquisadora contou em uma entrevista para a SBPC que não esperava tanta “fama”, e no começo não se sentia confortável com os “holofotes”. Porém, começou a olhar para a questão com outra perspectiva. Para Jaqueline, existem muitas pesquisadoras jovens, negras, mulheres que ocupam posição de destaque, mas que não têm representatividade. A pesquisadora também relatou que, durante sua trajetória, enfrentou muitas dificuldades por ser negra. Para a cientista, é importante não apenas trazer isso para a discussão mas também quebrar esses paradigmas.



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